Segunda-feira, 16 de Agosto de 2004

CASSETES DE CACIQUE I – Da ferramenta de trabalho à ferramenta bélica

O MESMO ELEMENTO EM MÃOS DISTINTAS TEM VALOR TAMBÉM DISCREPANTE, TUDO DEPENDE DA INTERPRETAÇÃO E DA UTILIDADE QUE SE LHE DÁ. UM ‘APONTAMENTO’ DE UM JORNALISTA, CAÍDO NO REGAÇO ALHEIO METAMORFOSEOU-SE NUMA INDUBITÁVEL ‘ARMA DE ARREMESSO’, PORÉM, ADULTERADA E COM DISPARO AVESSO.

1. A 'NOTÍCIA': Mais um mediático caso volta a surgir em Portugal, merecendo todas as primeiras páginas de jornais, capas de revistas e flash de abertura nos noticiários da televisão e da rádio. Com o tratamento dado à matéria objecto de notícia, uma vez mais, se assistiu à exploração estropiada, no meu entendimento, do assunto em concreto, tendo alguns elementos de relevante interesse sido preteridos relativamente a outros que, quando trabalhados, apenas servem para instalar a confusão e desviar o ponto fulcral.

Perante este quadro, creio que, primeiramente, somos convidados a reflectir sobre o conceito de ‘notícia’. Vejamos: o vocábulo que provém do latim «notitia» define tratar-se de um relatório ou informação sobre um acontecimento recente; um assunto de interesse, matéria adequada para jornal e noticiários de rádio e/ou televisão; uma informação, uma novidade, uma “nova”. Ora, aqui começa a discrepância:

I) São muitos os assuntos que, apesar de não serem relevantes, são apresentados nos mass media com frequência;

II) Por serem reiteradamente explorados e “reexplorados”, deixam de constituir uma novidade;

III) Pela sua forma e conteúdo, não se assemelham a uma ‘informação’ na verdadeira acepção da palavra.

Na verdade, andamos a “comprar gato por lebre”.


2. A “BOATO-NOTÍCIA”: Ao longo dos tempos, com efeito, temos assistido a uma descredibilização da ‘notícia’. Penso até que ao indivíduo que a elabora já não é muito correcto chamar-lhe ‘jornalista’. Creio que a função ‘fazedor de boato-notícias’ lhe assenta bem melhor.

Em meados de 1992, frequentei um curso de jornalismo promovido pelo CENJOR - Centro de Formação de Jornalistas, de onde retenho bem emergente, por força do período mediático que se tem vivido, um princípio basilar para a elaboração de uma notícia proferido naquela acção pelos afamados jornalistas Carlos Madeira e Vasco Fernandes – para publicar uma notícia é preciso consultar três fontes e só publicar o que é comum às declarações obtidas. Penso que esta exigência advém da necessidade de publicar a novidade sem deturpar a verdade a ela inerente. Com efeito não deixa de ser o ideal de uma notícia, só que nos dias de hoje as manchetes suscitam muitos interesses, não noticiosos mas talvez pessoais, institucionais, correligionários ou comerciais.

Desta feita, basta um boato ou uma interpretação mais leviana de uma ocorrência ínfima para dominar a actualidade do dia seguinte.

No braço-de-ferro entre o 'boato' e a 'notícia', em todos os duelos tem ganho, claramente, o 'boato'.


3. AS FERRAMENTAS DA NOTÍCIA: O jornalista ou o ‘fazedor de boato-notícias’ recorre a ferramentas para o seu trabalho tal como qualquer outro indivíduo em qualquer outra actividade laboral. Abandonados a estenografia ou o gravador analógico, na actualidade aqueles profissionais fazem-se acompanhar de um ‘bloquinho’ “para inglês ver” e gravador digital. Se antevêem autorização para gravar, levam o equipamento maior, se julgam indeferida essa pretensão, fazem-se acompanhar de um equipamento “escondível”. Se autorizados para gravar, constróem registos magnéticos para utilizar na peça jornalística. Se gravaram à socapa, ficam com ‘apontamentos’ de suporte à elaboração da peça.

É crime captar imagem ou voz sem autorização ou conhecimento do visado. Os jornalistas sabem disso. Talvez por essa razão não utilizem o ‘fruto proibido’, a menos que um dia precisem e entre o crime cometido e a verba adquirida consigam obter lucro.


4. A QUEM PERTENCE O 'FRUTO PROÍBIDO'? Será que se o ‘fruto proibido’ cair em mão alheia o legitimo proprietário o reclama? Com que direito? Será que a transmissão negocial ou furtada desse ‘fruto proibido’ não transfere a ‘culpa’ para o adquirente? Será que o adquirente se preocupa com a titularidade de um ‘fruto proibido’ que lhe é colocado à porta ou na caixa do correio? E será que algum dos compradores, vendedores, furtados ou premiados se preocuparão, quando poderão envolver um qualquer desconhecido intermediário que, eventualmente, possa ter trabalhado ou adulterado o conteúdo do ‘fruto proibido’? Todos ficarão ilibados. Todos. Até mesmo os donos das vozes captadas.

Com efeito, a susceptibilidade dos registos magnéticos digitais e a sua faculdade de serem alterados, actualmente, por força da inovação tecnológica é tal, que, atentos para esta matéria, muitos entrevistados solicitam a verificação dos textos finais antes de serem publicados.

Perante esta situação e também apreensivo, permito-me considerar que uma simples ferramenta de trabalho, na mão de outro assume faculdades impensadas. Uma autêntica arma que todos sabem que dispara só não sabem em que sentido o faz, ou se pura e simplesmente explode ou implode.


Monchique, 16 de Agosto de 2004

Victor M Santos Correia
(Licenciado em Gestão de Recursos Humanos)

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cogitado por vics às 20:32
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