Sábado, 11 de Dezembro de 2004

O Fim da est(h)abilidade de Pedro & Paulo!

O Presidente decidiu, falou, é preciso agora que o povo vá em busca da estabilidade social, política e económica, e, esvazie e extinga as habilidades de circunstância.


 1. O anúncio do fim. O Presidente da República falou ontem aos portugueses, após as diligências exigidas pela lei fundamental, escusando-se a enumerar as razões que motivaram a sua decisão. No entanto, o seu discurso foi bastante incisivo e envolto numa dura crítica à acção (des)governativa da dupla Pedro & Paulo.
As vozes que se fizeram ouvir, em representação dos partidos do poder, ou seja, os porta-vozes da ‘virtual coligação de interesses pessoais’, alegaram que o discurso do Presidente não foi esclarecedor e que continuam a achar que não haviam razões para disparar a ‘bomba atómica’ sobre o parlamento.


De todo. Não concordo. Acho que o Dr. Jorge Sampaio falou aos portugueses imbuído do sentimento do povo a que preside. Atente-se que a decisão que tomou mereceu parecer favorável (1) do Conselho de Estado, congratulação de toda a oposição – com e sem acento parlamentar – e despoletou o suspiro de alívio das portuguesas e dos portugueses.


2. Que razões fundamentaram o Presidente? Diz a oposição não perceber, não compreender o porquê da decisão, não encontrando quaisquer causas para tal e reportando-se sempre ao facto de terem uma ‘maioria estável’.
O que eu não percebo são as atitudes do PPD/PSD e do CDS/PP após a tomada de decisão do Presidente. Como eu, talvez milhões de meus concidadãos, estou certo. Também creio que outros não pensarão assim, nomeadamente aqueles que percorrem cegamente carreiros de carneiros discípulos de qualquer seguidismo partidário ofuscante e acéfalo. Mas desses, felizmente, há cada vez menos. Por isso, o Presidente não precisou enumerar as razões. Elas são do censo comum.


Será que são precisas mais razões do que as que a coligação ‘saco de gatos’ nos ofereceu? O líder de um dos partidos que suporta a maioria surpreende-se com a pasta que lhe é dada no acto de tomada de posse; uma senhora que é apregoada, com pompa e circunstância, por esse mesmo líder, para uma secretaria de estado e, depois, atrasando o acto de tomada de posse, fica adstrita a outro ministério e com outra tutela; um barco de ‘propaganda de sociedades livres’ é tratado como inimigo que belicamente pretendia entrar no país; um 'braço-de-ferro' entre ministros (do mesmo governo mas de partidos diferentes), com desmentidos, desautorizações e flechas verbais; uma lista de professores que teimou em não sair, e sempre que saiu, saiu mal; um ministro que apontou o dedo às vozes críticas, como que de um oficial da PIDE se tratasse, recordando perfeitamente o período da censura; um intuito estratégico para controlar a comunicação social, por fora ou por dentro; um ministro que recebe uma pasta distinta da que lhe havia sido prometida e que rompe com a amizade e compromisso que o vinculava ao governo e a Pedro Santana Lopes, acusando este de faltar à verdade e à lealdade; a crítica que a sociedade em geral e as instituições, incluindo o Presidente da República, fizeram ao Orçamento de Estado para 2005; entre tantos e tantos outros incidentes que marcaram cada dia de (des)governação nestes quatro meses difíceis para os portugueses que se viram sufocados pela intervenção díspar e rude do Governo da República.


Serão poucas razões? Por exemplo, o Algarve, que mereceu tanta afronta, tanta falta de clemência, tanta asneira que certamente colocará este governo na história como um dos principais inimigos, precisará de mais razões?
Creio que não.


3. Estabilidade ou Est(h)abilidade? Estou convencido que, admitindo que não há entre os correligionários dos partidos da coligação um fanatismo tal que lhes provoque cegueira ou falta de sensibilidade ou de percepção, só posso aceitar que quando se referem a ‘estabilidade’ querem mesmo é dizer ‘esta habilidade’, portanto, uma questão de pronúncia. É que, não se pode considerar que a coligação goza de estabilidade, quando um dos partidos é o ‘saco de boxe’ do outro, nomeadamente nos seus congressos – recorde-se que, quer em Oliveira de Azeméis, quer em Barcelos, o CDS/PP foi objecto da bordoeira e ‘bode expiatório’ –; ou, por outro lado, quando há atritos entre ministros oriundos ou designados por partidos diferentes.
Será que governa em estabilidade um Governo que, fora nomeado para tomar o comboio a meio do percurso e continuar a comandá-lo até ao fim da linha, e se afirma como um bebé prematuro a requerer incubadora? Mas afinal é um governo de continuidade ou é um novo governo?
Será que goza de estabilidade um governo do tipo ‘bebé-prematuro’ que é agredido pelos irmãos mais velhos? Quais? Os do governo antecessor? Os fundadores dos partidos coligados? O homem que ambos os partidos querem que seja o candidato da Direita à Presidência da República?


Que ‘estabilidade’ é essa que é resistente ao desaire das eleições regionais em que a coligação é claramente perdedora? É claro, absolutamente claro, que não há estabilidade na coligação nem na sua forma de governação. Presumo sim que haja uma habilidade de mentir e de agir, envolta num qualquer disfarce subtil, que se impregna nas entranhas do país sufocando-o com a sua intervenção devastadora. Uma espécie de vírus Ébola, que apesar de actuar em sentido contrário, provoca o mesmo efeito.


Bem, isto são cá coisas minhas, mas que penso nelas é verdade.
Penso, blog existo!
Estarei certo?


Victor Santos
vics@sapo.pt


(1) Segundo o semanário Expresso presume-se que dos 18 conselheiros que integram o CE, onze tenham votado a favor. 

cogitado por vics às 07:21
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Janeiro 2013

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.cogitos recentes

. O tal princípio de Peter ...

. Higiene n'os media

. Dia de luto em Portugal

. Arte de bem receber a Mat...

. Vencer barreiras

. UNIÃO EUROPEIA, Quo vadis...

. Economia estrangulada

. Relançar o Futuro

. Tobin 40 anos depois

. Piegas Povinho

. Simplesmente... espectacu...

. Uma Alarvidade

. Ver para crer...

. Última hora: Mais um aume...

. Jornada Mundial pelo Trab...

.arquivos

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Janeiro 2012

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Dezembro 2008

. Dezembro 2007

. Abril 2007

. Julho 2006

. Março 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Setembro 2005

. Fevereiro 2005

. Dezembro 2004

. Novembro 2004

. Agosto 2004

. Julho 2004

. Junho 2004

.tags

. todas as tags

.links

.Cogitantes até agora

Counter
Free Counter

.Cogitando

online
blogs SAPO

.subscrever feeds