Segunda-feira, 13 de Dezembro de 2004

Atrás de Pedro, Paulo estava!

Talvez imbuído da ‘Política do Tabu’, Paulo escondeu-se por detrás de Pedro quando este – contrariando a declaração de tréguas ao Presidente da República proferida, dois dias antes, pelo representante da coligação, Vítor Cruz – comunicou que o Governo vai apresentar pedido de demissão conforme decisão tomada no Conselho de Ministros Extraordinário.


1. Por que é que se escondeu Paulo? De facto, por que é que o líder de um dos partidos da coligação não ladeou o outro, aquando da aludida comunicação? Mais, por que é que Paulo Portas não só não ficou ao lado de Pedro Santana Lopes, como procurou o lugar em que podia ficar mais escondido? Porquê? Para quê?
Literalmente atrás do líder, numa posição em que só se via, por parcos momentos, a tímida franja que almeja cabeleireiro há já umas boas semanas, Paulo Portas, parecia estar a caricaturar o omnipresente ‘Emplastro’, isto para manter a elevação do comentário e não entrar numa abordagem assente em trocadilhos e vocábulos menos próprios e um tanto ou quanto jocosos que também já ouvi e vi associados às posições físicas que Pedro e Paulo tomaram na referida comunicação, os quais me escuso, por isso, a referir aqui.
Não se compreende que Paulo Portas tenha procurado um local menos visível quando, na sequência daquela comunicação, pouco tempo depois, também falou ao país e reforçou as ideias apresentadas por Pedro Santana Lopes. O conteúdo não foi, certamente, a razão. Mas terá sido a estratégia?
Protocolarmente, naquela ‘cerimónia’, adoptando-se o modelo de todos os ministros ficarem numa linha continua e ao mesmo nível, nenhum deles se poria atrás do Primeiro-Ministro. À direita do Chefe de Governo ficaria o elemento que o substitui nas ausências e impedimentos (o número dois), à esquerda o número três, novamente à direita o número quatro, e assim sucessivamente, no pleno respeito da ordem que consta da Lei Orgânica do XVI Governo. Ou seja, Pedro Santana Lopes devia ter ao seu lado direito Álvaro Barreto e à sua esquerda Paulo Portas, mesmo que a linha dos ministros estivesse um pouco mais recuada que o palanque em que o Primeiro Ministro falou.
Mas continuo a achar que talvez tenha sido estratégia, num intuito de protagonizar o ‘tabu’, de esconder a verdade total, de dilatoriamente ser vencedor. A menos que a posição de Paulo tenha servido apenas para fazer caretas, figas ou soltar umas lágrimas.


2. Por que é que se demitiu o Governo? Pura birra? Capricho? Súbita percepção da realidade? Para cumprir com o guião e com o ritmo dos episódios? Por necessidade de alívio?
De facto, qualquer das opções referidas são possíveis. Portanto, fica a dúvida no ar. Todavia, não se pode deixar de comentar a decisão lamentando que a mesma preconize um abandono das responsabilidades, uma fuga. Por outro lado, só o estado demissionário ou de ‘Governo de Gestão’ é que permite começar de imediato a fazer campanha. É preciso é que, bem assim, não se confundam os cenários, os momentos e os públicos-alvo, nem se ponha o Governo e o Estado ao serviço de quaisquer interesses politíco-partidários.
Outro comentário, mais mordaz, merece o momento. Aliás, em virtude dos sucessivos episódios que, dia após dia, são propensos à destruição da dignidade das instituições e do Estado e do Governo e que deixam envergonhados os argumentistas das novelas mexicanas que não são capazes de proporcionar tão majestosa diarreia ou avalanche de situações e acções inéditas, insólitas e ridículas, não se podendo porém considerá-las de uma novela-comédia, porque se esgota a graça quando o objecto da intervenção destes personagens somos nós. No entanto, não se pode deixar de fazer esse comentário, até para encontrar algo que, apesar do actual quadro, nos permita sorrir, embora que timidamente: É cruel ser contra-aborto e pró-eutanásia. Foram estes personagens que teimaram em nascer, mesmo que permaturamente e foram eles que contribuiram ou motivaram o ‘desligar da incubadora’.
Escuso-me também a comentar a afirmação de Pedro Santana Lopes em que alude que «é o Governo que decide os seus próprios poderes». Não o faço, pois dada a adversidade à legalidade e a aproximação a caudilho, isso sim, caudilho, certamente os comentários não manteriam a elevação que se preconiza nesta crítica, o que é dificultoso dada a 'asneirada em catadupla' que todos os dias cai sobre nós.


3. Por que é que Sampaio continua a ser o principal alvo da Coligação? É claro, como a água, que decorre da estratégia definida pelos partidos da coligação. A derradeira hipótese de aumentar o número de votos, e tentar não sair absolutamente derrotados no processo eleitoral de Fevereiro, reside na exploração do conceito de ‘vitimização’, fazendo passar a tese de que Sampaio puxou do cartão do PS para presentear os seus correligionários que entretanto se reorganizaram. Até parece que o Presidente não foi a única pessoa que amparou e embalou a prematura criança.
Só o discurso eleitoralista de Pedro e Paulo é que os pode recolocar bem posicionados na corrida, no entanto, no claro combate que se propõem despolotar contra o inquilino do Palácio de Belém não só não é justo como espelha bem que esses senhores não conseguiram garantir a estabilidade no XVI Governo e se tiverem a ínfima hipótese de serem governo novamente vão ter, uma vez mais, um permanente atrito com o Presidente, mesmo que consigam diluir o ódio que agora lhes ferve. É que apesar destes protagonistas da actual maioria manifestarem ter memória de peixe – (mais ou menos quatro segundos), e só assim se percebe que agora se diga ‘alhos’ e daqui a pouco se diga ‘bogalhos’ – o Presidente é homem de boa memória e os portugueses também, em especial quando lhes arde na pele.


Bem, isto são cá coisas minhas, mas que penso nelas é verdade.
Penso, blog existo!
Estarei certo?



Victor Santos
vics@sapo.pt

cogitado por vics às 08:07
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1 comentário:
De Anónimo a 14 de Dezembro de 2004 às 15:15
Bem, cada vez você está mais duro e sarcástico. Mas acredito que cada vez gosto mais. O interesse dos seus textos é cada vez mais elevado.
Continue.
Beijos da MartaMarta Semedo
</a>
(mailto:marta_semedo@aeiou.pt)

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