Quarta-feira, 16 de Fevereiro de 2005

AMERICAN DIE

'À Americana'.
Será um filme? Será um acepipe? Será uma moda? Não! De todo. É, antes, ‘A Morte do Artista’.


1. A Campanha dos candidatos
O ataque pessoal ao adversário, recorrendo à utilização de espaços físicos e temporais outrora usados para a divulgação dos candidatos e programas próprios, tem sido recorrentemente utilizado pelo PPD/PSD, desde a pré-campanha. Em resposta à refutação e à inquietação que tal estilo mereceu, foi dito que se tratava de uma postura e de uma campanha ‘à americana’, sic.
Importa porém, no meu entendimento, não dissociar o uso daquele ‘estilo’ americano de outros aspectos, como por exemplo dos ataques desferidos noutras frentes, da permanente vitimização, e de verificar o quadro de ornamentação em que são abundantes os salpicos de clássicos, extravagantes e patuscos chavões. Ou seja, uma autêntica iguaria americana.
Recorde-se os sucessivos, reiterados, refutáveis e intoleráveis ataques perpetrados ao Presidente da República. Evoque-se também os arremessos aos gestores, aos economistas e a todos aqueles que ousaram contrapor ou rejeitar as propostas ou as decisões do Governo e, até mesmo do PPD/PSD. Mais, os ódios e as duras palavras dirigidas aos próprios correligionários que não se identificam com os actos, os projectos, a postura da actual liderança. E, o insólito, a rejeição das sondagens e a declaração de guerra às empresas responsáveis pelos inquéritos que traduziram aqueles resultados. Confronto este que, admita-se, é dirigido a quem deu as respostas e não a quem as compilou.


2. A campanha vista por “os media”
Também ‘à americana’, os media resolveram promover os debates entre os lideres dos principais partidos concorrentes à Eleição da Assembleia da República/2005. Para além disso, a cobertura que deram aos programas eleitorais e aos candidatos também mereceu o carimbo do país do tio Sam. Acabou por ser explorado o que não tinha e não tem interesse. Talvez tenha tido razão o Presidente do PPD/PSD quando disse que os media estavam contra ele. Só que, antecipou-se. Até então, não estavam contra ele, apenas noticiavam e exploravam a sinuosa, caótica e desorientada acção daquele candidato, repetidamente hesitante, produto de um confuso misto de entusiasmo claro e correctivo arrependimento. A partir desse reparo, os media não lhe perdoaram e o registo passou a ser outro – a divulgação cáustica, irónica e satírica de todos os actos daquele candidato. Aí é que o programa eleitoral foi mesmo posto de parte.
Enfim, não que Santana Lopes não o mereça, mas também os media assumiram uma postura, ‘à americana’.


3. A aceitação e a rejeição
'À Americana'. O ideal imaginário da perfeição, da ocidentalização e da democracia perfeita. Será? Não é esta a mesma América que ficou fora do Protocolo assinado há sete anos em Quioto (Japão) e que hoje entra em vigor? Não é esta a mesma América que virou costas ao Tribunal Penal Internacional? Não é esta a mesma América que se sente e se faz sentir como a esquadra policial do globo? Não é esta a mesma América que atenta contra a Declaração dos Direitos Humanos, mantendo nalguns Estados, a pena capital? Não é esta a mesma América que, na mesa posta por Durão Barroso, nas Lages (Açores), decidiu, com o Reino Unido e com a Espanha, invadir o Iraque à luz de uma maciça mentira e no estrito interesse económico americano? Não é esta a mesma América que tem penetrado em todo o planeta vendendo a Globalização de Davos (Suíça) como se tratasse da Socialização de Porto Alegre (Brasil), recebendo em troca o poderio económico?
Não há dúvida. É claro que é. Não só, mas também. Também é a mesma América que viu ser eleito, por erro informático, um filho de ex-presidente. Não foi bem uma sucessão dinástica, porque teve um interregno, mas o delfim conseguiu o Ceptro. Talvez por esta razão, o candidato que faz campanha 'à americana' se identifique com os americanos. Ao fim e ao cabo, também "dinasticamente" chegou ao Governo de Portugal.
Importa pois, tomar uma posição: aceitar ou rejeitar o que vem da América. Talvez, optar por aceitar só o que é realmente bom. Para mim, ultimamente, só tenho gostado ... dos filmes.


Bem, isto são cá coisas minhas, mas que penso nelas é verdade.
Penso, blog existo!
Estarei certo?


Victor Santos
vics@sapo.pt

cogitado por vics às 18:46
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2 comentários:
De Anónimo a 17 de Fevereiro de 2005 às 11:19
Como sempre, tás lá! Gostei. Já tinha saudade de ler-te. Continua. bjs. MartaMarta
</a>
(mailto:marta_semedo@aeiou.pt)
De Anónimo a 16 de Fevereiro de 2005 às 19:25
Belo texto e boa análise. Só não concordo numa coisa: esta campanha tem sido americanizada, mas na forma, porque nas campanhas americanas, apesar de tudo, ainda se falam de medidas concretas para problemas concretos. Podemo-nos perguntar: não há também discurso demagógico nos EUA? É claro que há. No entanto, os políticos americanos sabem que têm de recorrer a um discurso mais simples e popular para chegar a um determinado tipo de eleitorado e, para convencer aqueles que decidem o seu voto com base na razão, apresentar propostas claras para os problemas sentidos pelos eleitores. Infelizmente, é precisamente isto que não se passa nesta campanha. Já que foram buscar aquilo que é mau, podiam também ter trazido aquilo que é bom.
É um assunto para cogitar…
Filipe
</a>
(mailto:filipe-marques@iol.pt)

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